Amo, logo?

19jul11

A última coisa que eu esperava do filme 

Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital” (Alemanha, 2008, 570 min. cor),

do cineasta e escritor alemão Alexander Kluge, que tem (sim, isso mesmo) 9 horas de duração (ok, só vi 5!!) era que ele dedicasse um longo tempo para a discussão sobre o amor, o que não poderia ter vindo em melhor hora, já que tenho ouvido Beatles demais e pensado bastante no amor, que para aparecer é muito fácil, já pra ir embora, uma desgraça! Aliás, quase todas as notas que fiz aqui no FB falam sobre… tentativas desesperadas de entender o que não deve ser entendido talvez? Enfim

O filme é a tentativa de Kluge de seguir anotações de Sergei Eisenstein, que por sua vez tinha um projeto suave, coisa pouca, quase nada, uma pechincha de cinema: filmar o Ulisses do James Joyce e o Capital, do bom velhinho, o Marx. Kluge se pergunta várias vezes durante essas horas todas se é possível filmar o capital? Quais imagens Eisenstein teria usado? Eu não sei se ele chegou a alguma conclusão porque não vi até o fim, mas o interessante é que Kluge começa a fazer associações entre conceitos de Marx e imagens, entrevistas com intelectuais e artistas alemães e faz uma discussão bem aprofundada sobre o capitalismo, socialismo, leninismo e … o amor! Ele muda de assunto bem do nada, até levei um susto do tipo: caraca, por essa eu não esperava… afinal, já tinham passado umas 2 horas (o filme começou as 10 da manhã!) e eu já estava dispersa, mas o tema fez muito sentido no meio dos conceitos do Marx e das loucuras do Eisenstein.

A questão é que o amor é a única coisa que rompe com o princípio básico do capital: acumulei irmãos! Isso porque em vez de juntar, nós guardamos o amor… não é uma acumulação cada vez maior, mas sim um modo de guardar dentro de nós o que outras pessoas tocam na gente, ao longo da vida e que pertence só a nós mesmos. Temos necessidade de amor e ele (ainda) não está à venda. E aí pode ser o amor em família (ok, mesmo que Marx tenha querido destruir a família), o amor entre amigos e o amor da paixão. E é somente pelo amor, que ainda não está à venda, que conseguimos alcançar um estado de espírito do impossível, da doação, do querer bem, do fazer o que for pelo bem de quem se ama. E isso o Capital não destruiu ainda… o amor é cimento (e não se desmanchou no ar, como tudo o que é sólido).

O problema que Kluge colocou foi: e quando não temos amor?? O que fazemos??? O socialismo pode dar conta da falta de amor? e da dor de amor? Há… doce engano achar que o socialismo tem a fórmula de todos os nossos males, afinal, não se pode exigir amor como exigimos justiça social… entende?! Não dá!!! Portanto o amor é uma utopia, fica em aberto, não tem conclusões, depende de mil acasos e a dor que ele provoca terapia ou socialismo nenhum podem resolver por nós… o amor é uma utopia… e um problema… Podemos ter pão e terra… já o amor, é mais embaixo!

A diva Maria Rita canta assim: Não há no mundo lei que possa condenar, Alguém que a um outro alguém deixou de amar… Ainda bem né? Mais uma prova que o amor ainda é incontrolável pelo capitalismo.

E ela continua:  Porque é que tem que ser assim; Ninguém jamais pôde mudar; Recebe menos quem mais tem pra dar. É isso que fazemos com o fim do amor: lamentamos e guardamos o que tiver que ser guardado, mas felizmente, isso é nosso e não está à venda, nem à disposição de ser barganhado. E quando menos percebemos estaremos amando de novo, é só se jogar no mundo:

“Vou mostrando como sou

E vou sendo como posso,

Jogando meu corpo no mundo,

Andando por todos os cantos

E pela lei natural dos encontros

Eu deixo e recebo um tanto”

(Esses aqui foram os Novos Baianos…)

O amor é uma lei natural… recebe-se e entrega-se… de graça!

O que o filme me fez perceber é que essa é uma questão muito importante para nós historiadores/militantes. Coisa que a minha amiga Nina já tinha notado com o livro do Erich Fromm – A arte de amar, que diz que o amor é o mais próximo que temos de resolver nossos problemas existenciais modernos. Ele não cedeu ainda para o Capital… vc não pode comprar amor, empatia, carinho por preço algum…. e isso é vantagem pra gente que sonha com o dia em que o capitalismo não existirá mais… assim como Fromm sonhava, que não por acaso escreveu o livro em 1956, ano de choque pra esquerda mundial, quando a URSS provocou um massacre na dissidente Hungria. Foi o ano que Thompson aliás e muitos militantes europeus saíram das fileiras dos PCs. Fromm, com seu livro sobre o amor influenciou muitos jovens, inclusive dissidências que não pararam de crescer nos anos 1960, formadas por pessoas que não aceitavam a intolerância, seja ela vinda da “direita” OU e INCLUSIVE da “esquerda”. E o amor acabou sendo palavra de ordem dos movimentos de 1968, dos hippies, dos Beatles e de um monte de gente envolvida na política daquela época.

Mas… o que a gente faz qdo vira historiador, militante, político ou qualquer coisa que o valha? Acaba com tudo numa caretice sem fim e esquece coisas básicas, que “sentir” é tão (ou mais!) importante que pensar. E que sozinhos (ou nas nossas tendências/grupos) não somos muita coisa que valha a pena nessa vida… Sair um pouco dos eixos, sentir amor, na sua plenitude, é um dos desvios que não podemos deixar de praticar nas nossas lutas diárias contra o Capital… e Erich Fromm já tinha dito… e Marx também, mas resmungando um pouco…

Penso, logo sinto … Amo, logo ? Acho que fica sem respostas por enquanto…

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